01 dezembro 2006

Do Positivismo à Hermenêutica

A ciência normal é tão fechada quanto a vida real se aproxima da noção que os epistemólogos têm do que é ser racional. O discurso normal é aquele que é conduzido dentro de um conjunto acordado de convenções acerca do que conta como contribuição relevante, do que conta como resposta a uma pergunta, do que conta como ter um bom argumento para aquela resposta ou uma boa critica a ela.

Khun

Fernando Pessoa, (1929) nos seus escritos procura levantar algumas questões em relação ao empreendimento científico social, num contexto em que as ciências sociais davam os seus primeiros passos e onde o espírito da época era dominado pelo ponto de vista positivista-uma crença no progresso e na ciência, ao referir: "Sou um analisador que busca, quanto em si cabe, descobrir a verdade. Ora o público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade.
Julgo que neste escrito Pessoa ilustra bem o diagnóstico de dificuldades do investigador social (professor, investigador, sociólogo) e da impossibilidade da verdade porque o nosso objecto também produz uma sociologia espontânea que orienta na acção, e uma segunda parte em que sugere algumas soluções: o diagnóstico de um problema- a objectividade das ciências sociais. Deve-se adoptar o ponto de vista das ciências exactas? - atentemos neste excerto"Acresce que a verdade- em tudo, e mormente em coisas sociais é sempre complexa". Ora o público não compreende ideias complexas. É preciso dar-lhe só ideias simples, generalidades vagas, isto é mentiras, ainda que partindo de verdades; (...) Se a obra de investigação, em matéria social, é portanto socialmente inútil..." Este argumento de Pessoa pode ser assim traduzido: toda a procura da verdade é difícil mas no caso das coisas sociais torna-se ainda mais complicada. O objecto das ciências sociais é diferente do das ciências exactas: tem uma linguagem, é activo e não está interessado na verdade complexa porque a linguagem (e o conhecimento prático) serve para agir.Por isso, os cientistas sociais não trabalham no vazio: desenvolvem a sua investigação em contextos relacionais. Numa palavra, a procura da objectividade (conhecimento verdadeiro) é muito difícil e, até certo ponto; inútil pois o objecto (os agentes sociais) preocupam-se acima de tudo com os efeitos, estão demasiado envolvidos nos seus jogos.
O mais importante não é a ambição positivista assente num conhecimento objectivo, mas sim um conhecimento sociológico baseado numa hermenêutica reflexiva. Diz Pessoa, "reconhecendo que todas as doutrinas são defensáveis, e que valem, não pelo que valem, senão pela valia do seu defensor, concentrar-nos- emos mais na literatura das defensivas do que no assunto delas. Trata-se, no fundo, de estarmos atentos ao carácter mediador da linguagem pois ela não é apenas um instrumento, mas ela própria produz a realidade.Toda a linguagem é atravessada pela retórica (arte da persuasão) e pela pragmática (tem efeitos). Assim, não se trata nem de produzir textos muito "bonitos", "artísticos" e inúteis, nem de textos com a ambição da objectividade, mas sim de criar textos em que interessa ter em conta as capacidades de persuasão, os efeitos reais desses textos num contexto relacional. Pessoa como escritor fala dessa arte de persuasão pela escrita, e traduzindo esse "jargão literário" em termos mais "sociológicos" podemos afirmar que é possível uma ciêncial social mais hermenêutica, mais próxima do "socius" desde que abandonemos a pretensão de um conhecimento objectivo (a verdade) e adoptemos uma forma de fazer sociologia ou investigação social mais pragmática e atenta ao contexto relacional em que se insere.
Na verdade esta perspectiva hermenêutica aproxima-se de Thomaz Khun e de Richard Rorty. Khun admittiu que até nas ciências exactas era uma ilusão a ideia de progresso incrementalista do conhecimento, no sentido de "conhecer" objectivamente o real físico. Embora a diferença em relação às ciências sociais seja mais de normalidade e recorra a instrumentos de medida mais rigorosos, Khun mostrou em certa medida que a incomensurabilidade (ou como dizem as novas ciências exactas) o princípio da incerteza poderia ser encarado como algo de positivo para o avanço da ciência. Na verdade as ciências sociais não deveriam ser encaradas como filhos "estigmatizados" de uma ciência exacta.Khun concordaria com o diagnóstico de Pessoa sobre a carga de incomensurabilidade das ciências sociais, embora teria dificuldade em corroborar uma tese relativista pessoana, ou seja, "o vale tudo na ciência" .
Já no caso de Rorty, a situação seria diferente. Para além de concordar com o diagnóstico de Pessoa- a maior incomensurabilidade nas ciências sociais, diria que Pessoa teve a coragem de não ter medo de pôr em causa o carácter sagrado da ciência, defendido quer pelos membros das tribos científicas, quer pelos filósofos da ciência.
As ciências sociais defrontam-se com um problema.." o público não quer a verdade mas a mentira que mais lhe agrade. Acresce que a verdade- em tudo, e mormente em coisas sociais- é sempre complexa e o público gosta de ideias simples". Cria-se aqui um problema de comensurabilidade. Os agentes sociais praticam os jogos da linguagem como formas de vida. Os cientistas sociais e da natureza preocupam-se mais em dar conta da complexidade. O sucesso da previsão das ciências naturais está ligado ao facto de todos os estados do sistema , passados e futuros, poderem ser descritos na mesma classe de conceitos, como valores, digamos, das mesmas variáveis. Por este motivo todos os futuros estados do sistema solar, tal como os passados, podem ser caracterizados na linguagem mecânica newtoniana.
Os cientistas objectivos apontam para que os resultados da compreensão são apenas de validade pré científica , subjectivamente heurística, e que devem no mínimo ser testados e complementados por métodos analíticos objectivos. Os protagonistas da compreensão, por outro lado, insistem em que a obtenção de quaisquer dados nas ciências sociais-e, por consequência, qualquer teste objectivo das hipóteses-pressupõe a compreensão efectiva do siginificado.
Nesta lógica caímos numa hermenêutica da ciência, a que Rorty designa de esperança no abandono do constrangimento e confrontação, onde todo o conhecimento pode ter lugar num terreno comum, isto é uma ciência onde cabem um ou mais paradigmas, entre eles o positivista e o interpretativo, sendo que qualquer um deles, embora diferentes do ponto de vista da análise em investigação detêm uma carga de subjectividade já que a linguagem dos agentes na investigação pode alterar o curso da investigação e, por isso, os resultados. Este argumento, do ponto de vista hermenêutico, arrasta-nos para outra dimensão da interpretação na ciência, quer estejamos a estudar um objecto físico e natural, quer um objecto social ou uma comunidade de macacos numa qualquer floresta do mundo. Do ponto de vista das ciências exactas, se o investigador não se deixar seguir pelo princípio da incerteza, a evolução científica não acontece porque não se produzem revoluções científicas, não há mudanças de paradigmas. do ponto de vista das ciências sociais ou na amplitude das ciências da natureza a investigação pode ser atravessada belas barreiras comunicacionais e da linguagem, logo o princípio da incerteza também existe, embora a investigação aqui muito mais complexa. Deste modo, fazer investigação requer da parte do investigador uma humildade intelectual e uma percepção e uma concepção de hermenêutica e complementaridade da ciência.
Vítor Calçada .
Bibliografia:
Rorty, Richard - A filosofia e o espelho da natureza, Lisboa, Ed. D. Quixote, 1988, pp.247-276
Pessoa, Fernando- Escritos Intimos, cartas e páginas autobiográficas, Lisboa, Pub.Europa América, 1986, pp. 50-51
Khun,Thomas "A estrutura das revoluções científicas" , S. Paulo, Editora Perspectiva, 1992